quinta-feira, 3 de abril de 2014

Adendo: Ventos da Mudança

Nota:
Antes de continuar na análise proposta sobre as canções do Megadeth, Kreator e Sepultura, farei um adendo que utilizei no TCC com uma análise pontual sobre a música “Wind of Change” do Scorpions, justamente porque ela serve como contraponto às analises mais realistas/pessimistas das bandas de Thrash Metal, e que permite vermos com mais clareza a diferença dos estilos dentro do Heavy Metal, quanto à temática, musicalidade e posicionamento político dos seus letristas.


O mundo passava por profundas mudanças com a queda do Muro de Berlim em 1989, e na esteira daquele processo muitos eram os países que botavam abaixo seus governos totalitários alinhados à URSS. Não somente na Alemanha Oriental (RDA), mas também na Hungria, Polônia e Romênia, apenas para citarmos os principais. (MEYER, 2009).

Porém, não há como negar que os eventos da noite de 09 de novembro de 1989 em Berlim foram catalisadores e inspiradores para a queda dos regimes socialistas e da própria URSS em 1991.

O processo da reunificação alemã, entretanto, ainda demorou quase um ano, finalizado apenas em 03 de outubro 1990, quando houve a anexação dos cinco estados que compunham a antiga Alemanha Oriental (RDA) à Alemanha Ocidental (RFA) tornando-se novamente um único país. (MONIZ BANDEIRA, 2009, p.2004)

Nesse contexto, a banda alemã Scorpions lança no fim de 1990 o seu décimo primeiro álbum de estúdio, chamado “Crazy World” com a música “Wind of Change”, que se tornaria o maior sucesso da carreira do grupo. E a explicação para o sucesso está na mensagem extremamente positiva que a canção reflete:


Wind Of Change

I follow the Moskva
Down to Gorky Park
Listening to the wind of change
An August summer night
Soldiers passing by
Listening to the wind of change

The world is closing in
Did you ever think?
That we could be so close, like brothers
The future's in the air
I can feel it everywhere
Blowing with the wind of change

Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away
In the wind of change

Walking down the street
Distant memories
Are buried in the past forever

I follow the Moskva
Down to Gorky Park
Listening to the wind of change

Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow share their dreams
With you and me

Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away
In the wind of change

The wind of change blows straight
Into the face of time
Like a storm wind that will ring
The freedom bell for peace of mind
Let your balalaika sing
What my guitar wants to say

Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow share their dreams
With you and me

Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away
In the wind of change

Vento da Mudança

Eu sigo o Moskva
Até o Parque Gorky
Escuto o vento da mudança
Uma noite de verão em agosto
Soldados caminhando
Escutando o vento da mudança

O mundo se fechando
Você já imaginou
Que poderíamos ser tão próximos, como irmãos?
O futuro está no ar
Posso senti-lo em todo lugar
Soprando com o vento da mudança

Leve-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças de amanhã sonharão
Com o vento da mudança

Caminhando pela rua
Recordações distantes
Enterradas no passado, para sempre

Eu sigo o Moskva
Até o Parque Gorky
Escuto o vento da mudança

Leve-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças de amanhã dividirão seus sonhos
Com você e eu

Leve-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças compartilham os seus sonhos
Com a mudança

O vento de mudanças sopra diretamente
na face do tempo
Como uma tempestade que tocará
A sino da liberdade para a paz da mente
Deixe sua Balalaika cantar
O que meu violão quer dizer

Leve-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças compartilham os seus sonhos
Com a mudança

Leve-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças de amanhã sonharão
Com o vento da mudança


Com as mudanças dramáticas ocorridas no mundo naquele período, a canção mostra o espírito que tomou conta de boa parte do mundo ocidental, com uma percepção de que a paz retornaria. Embora essa sensação ignore alguns eventos brutalmente violentos, como a deposição de Nicolae Ceaucescu na Romênia (executado em dezembro de 1989), ou o massacre da Praça da Paz Celestial em junho de 1989 em Pequim (capital chinesa).

Contudo essa sensação é reforçada e amplificada quando vemos as imagens da queda do Muro de Berlim e a festa dos alemães quebrando a picaretadas e marretadas o símbolo maior da Guerra Fria. E ainda quando analisamos a “Revolução de Veludo” que acabou com o regime totalitário na antiga Tchecoslováquia, e separou a República Tcheca e a Eslováquia, negociado diplomaticamente sem a necessidade determinante de uma revolta armada. (MEYER, 2009, p. 182-187)

A canção cita literalmente Moscou (Rio Moskva e Parque Gorky) e diz que as mudanças irradiam da capital do socialismo, e evidentemente está referindo à Perestroika e à Glasnost, uma nova forma de política e relação exterior implementada por Mikail Gorbatchov ao chegar poder na URSS em 1986(MEYER, 2009, p. 24-25) Este é considerado o marco definidor de tudo o que aconteceu depois, e também, o epílogo da própria URSS e do socialismo em seus países satélites (HOBSBAWN, 1995, p.475).

Se repararmos nas figuras de linguagem empregadas juntamente com a melodia suave (iniciada por um indelével assobio), o ouvinte é levado para paisagens bucólicas, pessoas se abraçando em harmonia, progresso da humanidade, amor fraternal/universal. Na concepção da letra não há conflito ou tensão, apenas a esperança que o mundo entre num período de paz, sem o medo da hecatombe nuclear, da opressão dos ditadores ou guerras separatistas.

A canção foi a mais executada em 10 países do mundo durante o ano de 1991, ganhando versões em língua espanhola e russa, transformando-a numa espécie de “hino” do fim da Guerra Fria. E justamente por não trazer aos ouvintes uma reflexão mais ampla sobre aquilo que pretendia falar, e pela suavidade da sua melodia agradável, a música podia ser exaustivamente repetida por várias rádios do mundo inteiro, facilmente assimilada pelas massas (ADORNO e HORKHEIMER, 2000, p.169-214).

A banda Scorpions se notabilizou durante a sua carreira por fazer um Hard Rock mais alinhado com aquilo que fazia sucesso nos grandes mercados fonográficos, e em algum ponto da sua trajetória nos anos 80 poderíamos até classificá-los como parte do Glam Metal. Isso, de sobremaneira, diminui a importância da banda ou sua qualidade técnica, e muito menos significa que a canção “Wind of Change” é uma propaganda deliberada da “extrema direita conservadora”. O que estamos analisando aqui é o sentimento que a banda compartilha com uma parcela imensa da população mundial, no tocante aos processos que deram fim ao bloco socialista. Trata-se de um documento onde podemos apreender o imaginário da maioria da população, mesmo que esta sensação apresentada esteja envolta por uma grande estratégia da indústria cultural que se apodera da música.

Com o esfacelamento rápido de todo o Mundo Socialista, com suas revoluções populares e mudança de poder, encerravam os anos da Guerra Fria como um suposto triunfo do capitalismo, particularmente dos EUA. E esse tom triunfal pode ser visto também na canção do Scorpions.

Mas essa visão não foi compartilhada por bandas que também escreveram sobre esse período, tal como o Kreator e o Sepultura, cujas visões são agudamente mais pessimistas acerca desse novo mundo que surge e do legado que os anos da oposição dos modelos econômicos deixa para a humanidade.

E analisando o atual momento, com a crise na Ucrânia e a anexação da Criméia pela Rússia, vemos que o “vento das mudanças” são mais como uma brisa passageira frente aos interesses políticos, econômicos e pessoais se sobrepõe ao bem estar do homem comum. Infelizmente, o mundo não é tão bonito e suave como propôs a canção de Klaus Maine.

Referências:

ADORNO, Theodor. HORKHEIMER, Max. A Indústria Cultural: o iluminismo como mistificação da massa. In: ______LIMA, L.C. (coord.) Teoria da cultura de massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

ARIÓSTEGUI, Júlio. A pesquisa histórica: teoria e método. Bauru(SP): Edusc, 2006.

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

GUARINELLO, Norberto L. História científica, história contemporânea e história cotidiana. Revista Brasileira de História, São Paulo, v24, n.48, 13-38, 2004.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

MEYER, Michael. 1989: o ano que mudou o mundo: a verdadeira história da queda do Muro de Berlim. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.


SCORPIONS. Crazy World. S/l. Mercury Records. 1990. 1 CD

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